Editorial H&LC 05 Os trabalhadores e suas organizações.

              

Há ainda espaço para se escrever história social do trabalho? A classe trabalhadora não deixou de ser um objeto de estudo relevante por ter se perdido a expectativa em seu potencial como protagonista dos projetos e lutas visando a transformação social? Os sindicatos não são instituições destinadas a atuar como parte integrante do sistema do capital e os partidos de trabalhadores não se mostraram, sem exceção, organizações cuja trajetória inexoravelmente se distancia da sua base social original, por conta de sua tendência à burocratização e autoritarismo ou simplesmente de sua traição?

Formuladas por interlocutores mais abertamente conservadores, mas também por analistas e ativistas que se formaram no campo das lutas da classe trabalhadora, tais perguntas nos são postas dia após dia, já faz algum tempo, seja no interior dos movimentos sociais da classe, seja nas Universidades. Enfrentá-las é um desafio teórico necessário para todo e qualquer projeto de construção de um conhecimento crítico e comprometido com a transformação social.

Como não poderia deixar de ser, dada a sua explícita vocação anti-sistêmica, História & Luta de Classes se propôs a apresentar uma contribuição a tal debate, apresentando estudos sobre a classe trabalhadora, suas lutas e organizações, no Brasil e no mundo. Estudos que partem de posições à contra-corrente das respostas – já lugares comuns – mais freqüentes para aquelas perguntas. Perguntas cuja própria enunciação já demonstra o momento que atravessamos, de ofensiva do capital sobre o trabalho e de dificuldades de produção de respostas pelos que resistem ao capital.

Trata-se de um quadro que se constrói em escala mundial. No Brasil, suas manifestações mais recentes passam pela escalada do desemprego nos grandes centros, pelo fato de a maioria da força de trabalho encontrar-se em empregos informais, pela diminuição no número de greves e do número de trabalhadores(as) sindicalizados(as). Trata-se, porém, de um quadro que também possui marcas fortes das opções ideológicas de boa parte das lideranças políticas dos movimentos da classe trabalhadora. Haja vista, no Brasil, o processo de incorporação à ordem pelo qual passaram importantes construções das lutas de fins dos anos 1970 e anos 1980, como a CUT, cuja conversão ao sistema do capital iniciou-se na década de 1990, mas acelerou-se sobremaneira com o governo do ex-líder sindical Lula da Silva.

Nada disso, entretanto, significa fim de linha, ausência de alternativas ou fim da história. Pelo contrário, como em outros momentos de refluxo das lutas, estão em curso processos de reorganização da classe que, embora hoje ainda insipientes, demonstram que o futuro das lutas sindicais e políticas dos trabalhadores, como sempre, continua em aberto para que esses construam sua própria história, ainda que em condições adversas.

O que esse número de História & Luta de Classes demonstra é que, do lado da Universidade, ainda existe reflexão historiográfica diversificada e de qualidade a respeito dos trabalhadores, suas lutas e organizações. As lutas sindicais estão aqui presentes, como no artigo de Fernando Pureza, a respeito das mobilizações da classe trabalhadora em Porto Alegre na conjuntura do final do Estado Novo. Outros artigos trataram do campo sindical em seu passado mais recente, abordando diversos aspectos da trajetória da Central Única dos Trabalhadores, como o de Rodrigo Teixeira a respeito da relação entre a CUT e o FAT e os artigos de Teones França, a respeito do impacto da crise dos regimes do Leste Europeu sobre diferentes correntes internas da CUT, e de Gelson Rozentino, sobre a atuação da CUT na Assembléia Nacional Constituinte. Teones e Gelson introduzem também, ao lado da CUT, o Partido dos Trabalhadores, abordado também por Felipe Demier, em artigo sobre as mudanças de rumo do partido, e por Igor Gomes, que discute a disputa de memórias que se instaurou entre os militantes do partido, a partir de sua chegada ao governo federal, em 2003. Ao tratarmos de lutas sindicais, pensamos sempre em greves, centrais, estrutura sindical. Mas, se a consciência de classe emerge da experiência de classe, tratada em termos culturais, na forma de valores, tradições e instituições, papel importante pode ser desempenhado pela aproximação entre os militantes sindicais e os “militantes culturais”, como o demonstra o artigo de Kátia Paranhos sobre os grupos teatrais do ABC, no período de emergência do “novo sindicalismo”.

As organizações de esquerda de um passado menos próximo também estão presentes nas reflexões aqui contidas, como no caso da análise de Carlos Zacarias sobre o PCB no período do Estado Novo e no estudo de Victor Coelho sobre o Jornal do Povo, periódico pecebista publicado em Belo Horizonte, no ano de 1948. A reflexão teórica, que atravessa todos os artigos, é o destaque no estudo de Ricardo Costa, sobre a estratégia revolucionária sistematizada por Antonio Gramsci. O número apresenta ainda quatro resenhas sobre obras relevantes, publicadas no último período e que encontram relação com a temática geral dos artigos.

O fato de História & Luta de Classes chegar ao seu 5o. número, com as tiragens dos números anteriores praticamente esgotadas, demonstra o fôlego da iniciativa e o interesse demonstrado, principalmente pelos historiadores em formação, por uma publicação de História que insiste no referencial do materialismo histórico, como ferramenta importante não apenas para explicar o mundo, mas também para transformá-lo.

Os editores deste número

Beatriz Ana Loner; Eurelino Coelho e Marcelo Badaró Mattos

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